quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Uma fundamentação teórica e prática da realização das tarefas da 4ª Gincana Solidária na EMEF Chapéu do Sol...


Relato sobre o roteiro das aulas de Artes para as turmas A23, A31, A32, A33 e A34,  no período de 2011 a 2012, pelo Prof. Rafael Johann. Este trabalho ilustra a necessidade de fundamentar a apropriação dos tempos e espaços vivenciados, o cuidado com os bens comuns, o estudo sobre as cinco Regiões Brasileiras ao assumir a responsabilidade com o Brasil em pleno exercício da cidadania de cada morador(a) desta terra amada... complementando a proposta da 4ª Gincana Solidária, considerando as abordagens, como: as relações no ambiente escolar e na comunidade; a promoção do protagonismo e da cultura; a ciência e o conhecimento .

Na intenção de criar um fio condutor para as aulas de Artes das turmas do primeiro ciclo pelas quais estava responsável, elaborei um roteiro temático que me permitiu desenvolver diversas experiências gráficas, buscando aproximar vivências artísticas e cultura visual – valorizando a linha de pensamento do ensino das artes difundida pelo educador espanhol Fernando Hernandez. Como guia do roteiro, elegi o artista-arquiteto-pensador austríaco Hundertwasser e sua teoria das cinco peles do homem. Essa teoria trata do homem e sua relação com o meio e consigo próprio a partir da distinção de cinco peles que nos envolvem, nos protegem e que influenciam nossa relação com o mundo. A primeira pele destacada pelo artista é a epiderme, nossa pele natural que nos remete a noção de corpo como a morada primordial do ser; a segunda pele seriam nossas roupas, proteção física e cultural que mesmo hoje, em tempos de homogeinização dos povos, ainda diferenciam muitas culturas no planeta; a terceira pele seria nossa casa, morada das famílias, espaço construído com matéria e afeto que se transforma ao longo da história e de acordo com cada povo; a quarta pele para o artista seria a identidade, muito relacionada também com a comunidade da qual fazemos parte; e a última pele seria o planeta, a Terra Gaia que nos permite existir, embora não seja apropriadamente zelada pelo homem – dessa noção parte toda a visão revolucionária e profundamente autônoma e ecológica que fazem de Hundertwasser um artista especial. Os desdobramentos que fui planejando e que foram surgindo ao acaso no decorrer do ano letivo acabaram fazendo do roteiro um percurso muito longo; não foi possível trabalhar com todas as peles, mas com certeza o que foi trabalhado rendeu resultados satisfatórios.
Trabalhamos principalmente com desenho, mas também com recorte e colagem, modelagem, atividades musicais e teatrais. O roteiro das peles às vezes sofria intervenções de datas festivas e atividades especiais da escola, inspirando atividades alternativas, um “respiro” no percurso.

Primeira pele – epiderme

Tomei a primeira pele como um estudo do corpo, assunto inesgotável para todos os níveis de cognição e de imaginação. Iniciei por atividades envolvendo todo o corpo e o corpo como um todo – desenhos, recorte e colagem de corpos a partir de revistas e de modelos, sons do corpo, brincadeiras teatrais com o corpo. Em seguida, partimos para atividades envolvendo partes do corpo: mãos, pés e cabeça, basicamente: nomes dos dedos, desenhos das mãos a partir do contorno, desenhos dos pés vistos de lado, vistos de cima, cabeça e suas partes, desenhos de rostos de frente e de perfil. Nesse momento vale destacar uma aula sobre a origem do desenho que me perece ter sido muito bem sucedida – a partir de uma lenda da origem do desenho, adaptei a narrativa para um universo próximo deles, contei a história desenhando alguns elementos no quadro e solicitei um desenho deles sobre algum trecho da lenda.

Segunda pele – as roupas

Nesse momento do ano, o frio já começava a se apresentar, então a importância das roupas se fazia presente na vida dos alunos o que ajudou na construção das aulas. Iniciamos com desenhos das roupas de frio e de calor, relacionando também às estações do ano e aos tipos de materiais dos quais as roupas são feitas (origem dos materiais). Em seguida, apresentei uma seleção de imagens sobre roupas de diversas épocas e culturas: roupas de peles da pré-história, roupas da antiguidade clássica, roupas e adereços indígenas, roupas de festas populares brasileiras, roupas tribais africanas, roupas orientais, roupas árabes, roupas dos esquimós, vestimentas religiosas, esportivas, profissionais... a partir de um cartaz com crianças vestidas com roupas de diferentes países eles realizaram diversos desenhos em sala, percebendo que nem todo mundo se veste como eles e destacando a beleza de roupas de diferentes culturas.
Propus às turmas que criassem coleções de roupas para serem produzidas por uma fábrica fictícia e em seguida trabalhamos em grupos criando lojas de roupas especializadas em certos tipos de vestimentas e adereços: eles desenharam as lojas, as roupas, as vitrines e até realizamos uma pequena feira. Com pedaços de tecidos de diversos tipos somados à alguns adereços, fizemos uma aula de fruição e criação de roupas, culminando com um pequeno desfile na sala. Essa atividade foi lembrada com carinho por eles na avaliação da turma no segundo trimestre. Como trabalho final da temática roupas, cortamos os pedaços de tecidos em pequenos quadrados e combinamos com desenhos e fundo previamente preparados, formando trabalhos mais completos em termos de acabamento e mais complexos em termos técnicos.

Terceira pele – a casa

O trabalho com a terceira pele iniciou com o desenho de quarto dos alunos: refúgio da intimidade deles, assunto nem sempre fácil; mas em muitos casos o resultado foi bom revelando afeto pelo espaço, atenção aos detalhes (principalmente do que mais gostam: TV, videogame, computador...). Do quarto passamos a outros cômodos da casa, até a fachada. Trabalhamos também criando casas, observando imagens de casas de diferentes materiais, culturas e tempos; um pequeno trabalho sobre a casa indígena merece destaque: a partir de um postal mostrando uma casa de barro guarani investigamos os materiais, a construção e um pouco da cultura indígena. Assuntos trabalhados:

Desenho do quarto;
Desenho da casa;
Desenho das peças da casa e seus objetos;
Apresentação de diversas casas;
Criação de casas móveis;
Criação de casas com materiais alternativos;
Apresentação de casas através da Arte em diferentes tempos;


Quarta pele – identidade/comunidade

A etapa da quarta pele envolveu trabalhos sobre a rua, o bairro, a comunidade e a escola. Os alunos desenharam suas ruas, buscando lembrar seus vizinhos, os estabelecimentos próximos as suas casas, destacando assim o cenário onde vivem e brincam quando não estão na escola. Em seguida, uma tentativa de conceber o bairro como uma pequena comunidade buscava ampliar a geografia mental e afetiva deles. Logo passamos a desenhar o caminho de casa até a escola, tarefa que rendeu resultados surpreendentes com alguns alunos que lembravam de muitos detalhes do caminho e conseguiam, dentro das suas condições, representar graficamente esse trajeto.





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